sábado, 12 de setembro de 2015

Meu Pé de Laranja-Lima (2013) - Marcos Bernstein

Filme 'Meu Pé de Laranja-Lima' diverte, mas também faz chorar

Sérgio Rizzo
Especial para a FOLHA, 20/04/2013 00h01

Alguns filmes são feitos para nos divertir, como as comédias e as aventuras. Outros querem nos emocionar e até nos fazer chorar, como os dramas.

Mas existem também os filmes que, ao mesmo tempo, conseguem nos divertir e nos emocionar. É o caso de "Meu Pé de Laranja- Lima", que estreou ontem.

É um gênero menos comum para a infância, mas há filmes marcantes que fizeram gerações de crianças e adultos chorarem, como "E.T." (veja quadro abaixo).

A história de "Meu Pé de Laranja-Lima" é baseada na infância do escritor José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), autor do livro que tem o mesmo nome, de 1968. É uma obra clássica, já adaptada outras vezes para a televisão e o cinema.

José Mauro teve uma infância difícil. Ele se sentia solitário e sofreu muito. Mas não deixou de ser criança: brincava, aprontava, divertia-se com os amigos. No filme, o menino Zezé é interpretado por João Guilherme Ávila, 11, que estuda no sexto ano de um colégio de São Paulo e é filho do cantor Leonardo.

Quando "Meu Pé de Laranja -Lima" começou a ser filmado, Guilherme tinha nove anos. O filme foi classificado pelo governo brasileiro (por meio do Ministério da Justiça) como não recomendado para menores de dez anos (que podem entrar no cinema, desde que acompanhados por pais ou responsáveis).

Guilherme não concorda. "A história é sobre crianças e, no final, dá tudo certo. Para mim, esse filme é livre [para todas as idades]", disse à Folha.

O menino não leu o livro. Nas filmagens, estava curioso para saber como a história terminava. O diretor do filme, Marcos Bernstein, achou que o garoto deveria conhecer uma cena de cada vez.

É uma história triste? Para Guilherme, "um pouquinho". Quando viu o filme pela primeira vez, chorou. Nunca havia chorado antes no cinema. "Muitas pessoas choraram."

Ou seja: prepare-se para enxugar as lágrimas.

E boa diversão.

Mia Couto, O desenhador de Palavras (2006) - João Ribeiro e Hudson Vianna


Produzido por João Ribeiro no ano de 2006, o documentário "Mia Couto - desenhador de palavras" já foi exibido em diversos festivais ao redor do mundo e é um retrato do escritor e das suas personalidades. 

Com um texto marcado pela oralidade e pela musicalidade, Mia disse que desde criança foi incentivado pelo pai, que era escritor. Segundo ele, na sua casa, tudo era imaginação. Ele também falou sobre a importância da literatura, o seu amor pela escrita e diversos aspectos da sua personalidade.

Além dos depoimentos pessoais do escritor, o documentário contou com depoimentos da população, de outros escritores e dos editores. Todos retrataram o seu talento e reiteraram a importância de sua obra para a valorização do País - inclusive, um dos depoentes considera os livros de Mia como um patrimônio do povo moçambicano. 

É interessante observar que mesmo diante de tamanha importância, no início do vídeo várias pessoas do povo demonstraram que sequer sabiam quem é o escritor. Um, inclusive, disse que Mia Couto é um músico. Esse ponto é essencial no documentário, uma vez que demonstra a falta de informação e de acesso de um povo que até hoje está esquecido pelo mundo. 

Sem dúvida o vídeo é uma ótima forma para conhecer o escritor, suas origens e seu talento!

Conta comigo (1986) - Rob Reiner

A história contada por Gordie Lachance começa no verão de 1959 na pequena cidade do Oregon, Castle Rock. Ele está reunido com seus amigos: Chris Chambers, considerado o líder do grupo, um garoto que vem de uma família ruim e todos na cidade já o consideram um mau elemento e Teddy Duchamp, considerado o “louco” do grupo, que tem problemas com o pai que bebe com freqüência e certa vez levou a orelha do garoto ao fogão quase a torrando, chega então o quarto integrante do grupo, Vern Tessio, com uma proposta que nenhum garoto de 12 anos recusaria: ver um corpo.

Eles partem, depois de inventar uma desculpa para enganar os pais, a uma distância de dezoito quilômetros, para encontrar o corpo do garoto.

Conta Comigo é baseado no conto de King: O Corpo, presente no livro Quatro Estações. O Quatro Estações é composto de contos que não são propriamente de terror. Pelo que me lembro quando li na introdução, King estava sendo tachado de “escritor de terror” e não gostava da ideia, então escreveu esses contos provando que seu talento vai além do horror. Com o decorrer da pequena viagem feita pelo grupo de quatro garotos vamos conhecendo mais e mais de cada um, suas vidas, relacionamento com os pais, medos e sonhos.

Sabemos que Gordie perdeu um irmão, Denny e que seus pais ainda não se recuperaram do luto, fazendo com que Gordie seja simplesmente um fantasma dentro de casa. Ele é completamente ignorado e sente que seus pais preferiam que ele tivesse morrido no lugar de Denny, que era um adolescente simpático, jogava futebol americano, era a atração das garotas, enquanto Gordie é só um garoto comum, que anda com amigos, que são considerados más companhias. Ele sente uma falta enorme do irmão mais velho que era o único que realmente “o via”.

A história de Gordie é bem emocionante. A forma como os pais simplesmente o deixam de lado, como ele se sente em relação a isso me lembra muito de Bill Gaguinho de A Coisa, que também perdeu um irmão e se vê no meio do clima pesado criado pelos pais.

Chris é dado como o pequeno marginal da cidade e embora sabendo que provavelmente ele realmente vai seguir esse caminho, odeia ser tratado dessa forma. Queria ir para um lugar onde ninguém o conhecesse.

Esse tipo de garoto é bem comum nos dias de hoje e nos faz pensar na forma em que agimos com relação a eles. Quando vemos um garoto do tipo, muitas das vezes, conscientes ou não, pensamos da mesma forma: que ele não tem futuro. Escondemos nossas bolsas e olhamos para eles de cara feia. Chris nos mostra o seu lado e em como podemos estar errados.

Teddy é louco, como todos dizem. Diz coisas loucas e também as faz. Ele tem um grande orgulho e amor ao pai, embora o mesmo o maltrate. E Vern é o garoto mais comum em meio ao grupo, meio bobão, acima do peso. O filme não dá muitos detalhes de sua família e sinceramente não me lembro muito bem dele no conto.

A história nos fala sobre amizade. Em como tal sentimento pode ser uma coisa forte e confusa e em como ele é ainda mais forte quando somos crianças. Uma frase bem famosa do filme é: “Nunca tive nenhum amigo depois, como quando tivera quando tinha 12 anos. Jesus, alguém teve?”

Amava ver esse filme na Sessão da Tarde e não tinha a mínima idéia de que era uma adaptação de Stephen King, só fui saber quando li O Corpo pela primeira vez. Desde então já assisti o filme novamente umas três vezes.

Realmente vale a pena, a atuação dos garotos ficou ótima, eles realmente souberam demonstrar a personalidade de cada personagem do livro. A trilha sonora está presente profundamente no filme, com clássicos da época.

Filme emocionante, uma adaptação muito boa. Acho que a única coisa alterada foi o estado do corpo do garoto, mas isso não caberia no filme mesmo. O conto tem mais detalhes e vale a pena lê-lo, mesmo após assistir ao filme. Espero que tenham gostado dessa clássica adaptação assim como eu.




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Gregório de Matos (2003) - Ana Carolina

Boas atuações esbarram em frieza de filme

Mário Sergio Conti
DA SUCURSAL DO RIO


"Gregório de Mattos" é um média-metragem (70 minutos) original, bem dirigido e bem interpretado. Filmado em sépia, todo falado em português seiscentista, o filme de Ana Carolina trata da vida e da obra do poeta Gregório de Mattos (1623-1696), o gênio barroco baiano.

Quem conta a história do poeta é uma abadessa (Marília Gabriela), que às vezes o insta a declamar seus versos. Gregório é interpretado por um poeta de verdade, Waly Salomão.

Escalar uma jornalista, um escritor e uma empresária para os papéis principais tinha tudo para dar errado. A ousadia deu certo. Salomão recita as poesias com naturalidade e verve. Sua declamação, como convém ao barroco, é argumentativa.

Marília Gabriela saiu-se maravilhosamente da empreitada. Ela criou expressões e gestos completamente diferentes das que usa como entrevistadora.

Isto posto, o filme é estranhamente frio. Essa frieza tem uma explicação evidente: a sintaxe e a gramática de Gregório de Mattos são de difícil apreensão para o ouvinte de hoje.

Os versos torneados, bem como a mescla de vocábulos em desuso com outros de origem índia, exigem leitura, releitura e tresleitura, com um dicionário, para seu entendimento. Imagine isto declamado, ou seja, sem chance de releitura: "Há coisa como ver um Paiaiá/ Mui prezado de ser Caramuru,/ Descendente do sangue de tatu/ Cujo torpe idioma é Cobepá?".

Outra dificuldade está no roteiro, que não propicia a interação direta entre os personagens, pois que mediada pela poesia gregoriana.

Há, por fim, a suspeita de que o universo de Gregório de Matos tem pouco a ver com o de Ana Carolina. Existem, é claro, semelhanças entre o poeta e a cineasta: a pândega fescenina, o humor escatológico, quando não obsceno, a sátira da velhacaria das aparências.

Mas as diferenças são de caráter mais profundo. A arte de Ana Carolina é moderna e feminina. A de Gregório, antiga e, mais que masculina, machista e, em momentos, misógina.

Como todos os filmes de Ana Carolina, "Gregório de Mattos" é pessoal e criativo. Mas nele não parece que está falando de assuntos que lhe são próximos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Poesia (2010) - Chang-dong Lee

'Poesia' , o filme sul-coreano premiado em Cannes

Luiz Carlos Merten - ESTADO DE S. PAULO 22 Outubro 2010 | 06h 00 

Produção de Lee Chang-dong é um dos destaques da 34.ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Lee Chang-dong considera que foi decisivo o ano em que foi ministro da Cultura da Coreia. Ele não apenas se confrontou com a diversidade da produção cultural de seu país, como teve de atender a demandas, polemizar sobre o que estava sendo feito. Quando voltou à direção, sentiu-se inseguro como nunca na vida. Com medo de errar a mão, fez o filme mais simples que podia, e escreveu um roteiro tão detalhado que mais parecia um romance. Secret Sunshine era sobre uma mulher que perdia o marido e, depois, o filho e buscava apoio na religião para a sua dor imensa. Chang-dong ganhou o prêmio de roteiro em Cannes, neste ano, pelo belíssimo Poetry (Poesia).

Outra mulher - uma avó - vela pelo neto suspeito de violar garotas. Ela sofre do Mal de Alzheimer e busca nas palavras, na poesia, uma forma de retardar o esquecimento, driblando sua morte em vida. Chang-dong encontrou-se com a reportagem do Estado no Festival de Cannes. Estava feliz com a recepção a seu filme - a entrevista foi feita antes da premiação. Por Secret Sunshine, ele já havia sido premiado em Cannes - melhor atriz. Se houvesse novo prêmio para ele, Chang-dong esperava que fosse de novo o de interpretação feminina.

Yoon Hee-jeong, que faz a avó de Poetry, tem mais de 300 filmes no currículo. É uma estrela vem seu país, mas há 15 anos ela não filmava. O que Chang-dong fez para convencê-la a voltar ao cinema? "Escrevi Poetry especialmente para ela, que ficou lisonjeada. Quando leu o roteiro, ficou fascinada, não apenas pela personagem, mas também pela precisão da escrita. Tudo estava ali previsto e detalhado. Gosto de fazer assim. É a forma como me sinto livre para mudar tudo no set. Mas as coisas não foram simples paraYoon. Quando ela filmava muito, a sincronização era diferente, feita na maioria das vezes a posteriori, em estúdio. Foi preciso que ela se adaptasse a um novo estilo de filmagem. Mas Yoon não é uma estrela. É muito humana, e foi um prazer para toda a equipe tê-la no set. Virou uma espécie de avó da equipe, preocupada com todos e com cada um."

Reflexões. A entrevista é feita com tradutor. Cada pergunta demora um tempão para ser formulada. As respostas demoram mais ainda. Chang-dong é reflexivo, olha nos olhos do entrevistador. Secret Sunshine olhava o mundo do ângulo das vítimas, Poetry talvez se construa do ângulo dos familiares dos carrascos. Ele diz que não pensou assim. "O que m e atrai é o ser humano. Carrascos ou vítimas, nós nunca somos só uma coisa. A natureza humana é complexa e, como artista, tenho a impressão de que minha função é iluminá-la. Filme para conhecer o outro e a mim mesmo."

O tema da doença é essencial em Poetry. O Mal de Alzheimer tem aparecido com frequência no cinema. O repórter insiste na definição de ‘morte em vida’. Chang-dong diz que a ligação da personagem com as palavras - poesia - faz parte de um movimento íntimo. "Dando novo sentido às palavras, ela busca preservá-las, e o que representam, do esquecimento." É filme belo e contemplativo. Serve à poesia e ao cinema. À poesia do cinema?

O garoto (1921) - Charlie Chaplin

(Liniers, Macanudo #1)



Palavra e Utopia (2000) - Manoel de Oliveira

Crítica: "Palavra e Utopia" distancia público do cinema português

A ousadia cinematográfica do diretor português Manoel de Oliveira, que conta a saga do padre Antônio Vieira em "Palavra e Utopia", deixou o público dividido no Festival de Veneza. Na 24ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o resultado não foi diferente.
Apesar de o filme seduzir pela extrema beleza fotográfica, o ritmo lento e a aparente desconexão entre os fatos estão sendo considerados de difícil compreensão para o público brasileiro.

O filme, uma produção de quatro países (Portugal, Brasil, Espanha e França), abriu a 24ª edição da mostra na quarta-feira passada, reservada para convidados. As suas mais de duas horas de projeção não conseguiram segurar a maior parte do público até o final.

"Palavra e Utopia", que em princípio teria tudo para cair no gosto popular dado à sua inserção dentro dos 500 anos de Descobrimento do Brasil e à popularidade do ator principal, Lima Duarte, não empolga.

"Eu me senti realizado trabalhando com o Manoel, único diretor vivo que dirigiu um filme no cinema mudo", destacou Lima Duarte à Reuters no dia da exibição do filme para os convidados.
O ânimo de Lima Duarte, no entanto, não está no filme. Abusando do estilo verborrágico, por meio de longos diálogos de um português intricado e pouco compreensível para o brasileiro, o filme peca no descaso com a comunicação com o público, que fica um tanto perdido na contextualização dos fatos históricos e impaciente com os discursos intermináveis e distantes da realidade contemporânea. 

O filme parte de 1663, quando Antônio Vieira comparece diante da Inquisição portuguesa e é obrigado a explicar as suas posições em relação à escravidão e à situação da exploração dos índios pela colônia portuguesa. Vieira, que chegou a ser amigo íntimo de Dom João 4º, transforma-se em alvo de intriga na corte e acaba vendo o seu poder de jesuíta enfraquecido.
"Palavra e Utopia", no entanto, tem qualidades inegáveis, como a exploração de uma bela iluminação dramática que transforma muitas sequências em lentos quadros, um recurso cinematográfico que ao mesmo tempo também contribui para o distanciamento do público.

Em vários momentos, Manoel de Oliveira utiliza desse recurso para trabalhar metáforas ou dar uma dimensão espiritual ao filme, como nas cenas em que a câmera apenas mostra o movimento do mar e a voz do padre Antônio Vieira aparece ao fundo questionando a escravidão e propondo a liberdade.

Oliveira chega a ressaltar a imobilidade de sua câmera ao mostrar um quadro de um jesuíta abaixado beijando as mãos de uma autoridade, uma alusão às delicadas relações existentes no questionamento do poder dominante.

Outro ponto alto da obra de Manoel de Oliveira é sem dúvida a atuação exemplar de Lima Duarte, que interpreta um Vieira mais velho, na sua fase da paixão. O único porém é que Lima começa a atuar já no meio do filme (outros dois atores interpretam o padre na juventude, Ricardo Trepa, e na razão, Luís Miguel Cintra), o que faz com que o público torça para que ele entre em cena logo para injetar ânimo na narrativa.

Manoel de Oliveira é um dos maiores cineastas vivos e considerado um dos pioneiros do neo-realismo com "Aniki-Bobó" (1942), presente na 15ª mostra, onde foi homenageado com "O Ato de Primavera" (1963), "O Passado e o Presente" (1971), "Francisca" (1981) e "Meu Caso" (1986). Em 1995, Oliveira recebeu o Prêmio Especial na 19ª mostra com "O Convento".
Para quem ainda não assistiu ao polêmico filme de Manoel de Oliveira, que esteve em cartaz neste fim de semana no Cinesesc, Cinearte e Sala Uol, na sexta, sábado e domingo, vale dar uma conferida nesta complexa obra no dia 2, no Cinearte, às 18h20.